Talentos excepcionais precisam de preparação profissional

Talentos excepcionais precisam de preparação profissional para transformar potencial em autonomia e oportunidades
Dicas & Curiosidades | Por Redação Olheinfo
Ter facilidade para aprender, curiosidade intensa ou desempenho muito acima da média não torna automática a entrada de um jovem no mundo do trabalho. Comunicação, convivência, responsabilidade, organização e capacidade de lidar com situações novas também precisam ser desenvolvidas. No Rio de Janeiro, uma formação gratuita promovida pelo Espro, em parceria com o Instituto Rogerio Steinberg, procura aproximar jovens com altas habilidades ou superdotação dessa realidade. Com 30 vagas e seleção conduzida pelo instituto, o curso está previsto para ocorrer entre 9 de novembro e 15 de dezembro de 2026. A iniciativa chama atenção para uma questão pouco discutida: reconhecer o talento é apenas o primeiro passo; criar condições para que ele encontre direção, pertencimento e oportunidades é o desafio seguinte.
Formação gratuita abre novas oportunidades no Rio
O Espro — Ensino Social Profissionalizante — anunciou duas turmas gratuitas de Formação para o Mundo do Trabalho destinadas especificamente a jovens com altas habilidades ou superdotação, identificadas pela sigla AH/SD. A iniciativa é realizada com o Instituto Rogerio Steinberg, organização que atua desde 1998 na identificação e no desenvolvimento de crianças e jovens com esse perfil.
Segundo informações encaminhadas pela Assessoria de Imprensa Espro, as turmas reúnem 30 vagas e terão aulas de 9 de novembro a 15 de dezembro, das 8h às 12h, na Avenida Marechal Floriano, 114, no Centro do Rio de Janeiro. O processo de identificação, seleção e recrutamento dos participantes é conduzido pelo Instituto Rogerio Steinberg.
Jovens de 14 a 22 anos podem manifestar interesse por meio do formulário de inscrição divulgado pelas instituições. Como a seleção depende dos critérios do IRS e o calendário informado está próximo, interessados devem consultar diretamente os organizadores sobre disponibilidade, documentação e confirmação da participação.
A formação possui 100 horas e integra o programa Formação para o Mundo do Trabalho, conhecido como FMT. A proposta não é ensinar uma profissão isolada, mas desenvolver repertórios necessários aos primeiros passos da vida profissional. Ética, cidadania, diversidade, solidariedade e respeito aparecem ao lado de marketing pessoal, postura profissional, trabalho em equipe, comunicação, educação financeira, empreendedorismo e rotinas organizacionais.
Esse conjunto revela uma dimensão importante da preparação profissional: conhecimento técnico e capacidade intelectual são valiosos, mas não funcionam separados das relações humanas. Uma ideia brilhante precisa ser comunicada. Uma solução criativa precisa considerar prazos, recursos e outras pessoas. Autonomia exige responsabilidade. Talento, quando encontra orientação e ambiente adequado, pode se transformar em contribuição concreta.
Altas habilidades não significam facilidade em tudo
Um dos equívocos mais comuns é imaginar que uma pessoa com altas habilidades será necessariamente excelente em todas as áreas, aprenderá tudo sozinha ou encontrará seu caminho sem apoio. A própria diversidade de manifestações desse perfil contraria a ideia de um modelo único.
A Lei nº 15.436, de 17 de junho de 2026, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, define a condição a partir de características como potencial intelectual elevado, intensa curiosidade, elevada capacidade de aprendizagem e profundo envolvimento em temas de interesse. Também reconhece que essas características podem vir acompanhadas de alta sensibilidade e intensidade emocional e se manifestar de formas diferentes ao longo do desenvolvimento.
Isso ajuda a entender por que altas habilidades não se resumem a uma nota de QI. O jovem pode demonstrar desempenho avançado em determinada área e, ao mesmo tempo, precisar de apoio para organizar a rotina, ampliar habilidades sociais, enfrentar frustrações, trabalhar em grupo ou compreender códigos do ambiente profissional. Pode existir grande distância entre o potencial percebido e as oportunidades efetivamente disponíveis.
O reconhecimento dessa complexidade evita dois extremos. O primeiro é ignorar o talento, deixando o jovem desestimulado ou sem desafios compatíveis com sua capacidade. O segundo é criar expectativas irreais, como se ele não pudesse errar, ter dúvidas, precisar de orientação ou apresentar dificuldades. Em ambos os casos, a pessoa deixa de ser vista em sua integralidade.
O número identificado cresce, mas ainda é pequeno
O Censo Escolar de 2025 registrou 56.238 matrículas de estudantes identificados com altas habilidades ou superdotação. O número consta na apresentação oficial dos resultados do Inep e representa crescimento expressivo diante das 23.758 matrículas registradas em 2021.
Em quatro anos, portanto, houve aumento de 32.480 registros, ou aproximadamente 137%. O avanço pode refletir maior atenção das redes de ensino, melhoria dos processos de identificação e ampliação do debate público. Ainda assim, o dado não permite concluir que todos os estudantes com esse perfil estejam reconhecidos e recebendo atendimento adequado.
A Assessoria de Imprensa Espro informa que mais de 2,4 mil municípios não registraram estudantes identificados com AH/SD no Censo Escolar de 2025. A ausência de registros em tantas localidades reforça uma pergunta relevante: essas crianças e esses jovens não existem nesses municípios ou ainda não foram percebidos pelo sistema?
Identificar não é rotular. Quando realizado com critérios educacionais e acompanhamento apropriado, o reconhecimento deve servir para compreender necessidades, planejar estímulos, reduzir barreiras e oferecer oportunidades de desenvolvimento. O próprio Inep esclarece que a caracterização dos estudantes precisa considerar instrumentos e registros capazes de revelar suas necessidades educacionais específicas e os apoios necessários à participação, à aprendizagem e ao desenvolvimento.
Do desempenho escolar à convivência profissional
A passagem da escola para o trabalho muda as exigências colocadas diante do jovem. Em sala de aula, o desempenho muitas vezes é medido por provas, projetos ou domínio de conteúdo. No ambiente profissional, o resultado depende também de ouvir, negociar, compartilhar informações, compreender prioridades, aceitar correções e cooperar com pessoas que pensam de maneira diferente.
É nessa transição que uma formação voltada ao mundo do trabalho pode produzir valor. O jovem começa a reconhecer que não basta encontrar a resposta certa: é necessário compreender o problema, o contexto, as pessoas envolvidas e os efeitos de cada decisão. Aprende que comunicação não é apenas falar bem, mas escutar, confirmar entendimento e adaptar a mensagem. Descobre que criatividade e disciplina não são adversárias; podem funcionar juntas.
Alessandro Saade, superintendente executivo do Espro, afirma que jovens com altas habilidades também necessitam de apoio para o desenvolvimento, especialmente no campo da carreira. Segundo ele, a transição profissional exige repertório sobre relações de trabalho, comunicação, colaboração, autonomia e capacidade para lidar com situações novas.
“A proposta do nosso programa é contribuir para que esses jovens consigam associar seus potenciais ao desenvolvimento de competências importantes para a construção de suas trajetórias profissionais”, declarou Saade no material enviado à OlheInfo.
A fala desloca o foco de uma visão baseada apenas no desempenho para uma perspectiva de trajetória. Uma carreira não se constrói somente com capacidade cognitiva. Ela depende de oportunidades, escolhas, vínculos, experiências, autoconhecimento e ambientes que saibam aproveitar diferentes maneiras de aprender e criar.
Empresas também precisam aprender a reconhecer talentos
Preparar os jovens é apenas uma parte do caminho. Empresas, organizações públicas e instituições de ensino também precisam rever processos que selecionam pessoas por modelos excessivamente padronizados. Uma entrevista convencional, por exemplo, pode valorizar desenvoltura imediata e respostas previsíveis, mas não necessariamente revelar profundidade de raciocínio, criatividade ou capacidade de resolver problemas complexos.
Isso não significa dispensar critérios, reduzir exigências ou presumir que toda pessoa com altas habilidades terá desempenho profissional superior. Significa avaliar competências de maneira coerente com a função e oferecer condições para que diferentes perfis demonstrem aquilo que sabem fazer.
Lideranças preparadas observam além da primeira impressão. Elas estabelecem expectativas claras, oferecem devolutivas objetivas, criam desafios compatíveis, acompanham o desenvolvimento e evitam tanto a subutilização quanto a sobrecarga do profissional. Também reconhecem que inclusão não consiste apenas em permitir a entrada, mas em construir pertencimento e possibilidade real de evolução.
Para os empregadores, essa postura pode ampliar o acesso a talentos capazes de contribuir com inovação, análise, tecnologia, pesquisa, comunicação, gestão e diversas outras áreas. Entretanto, o aproveitamento desse potencial depende de processos de recrutamento, integração e liderança bem estruturados.
A discussão se conecta a outro conteúdo da OlheInfo: contratar e capacitar colaboradores exige estratégia. Talento sem direção pode permanecer invisível; direção sem respeito às diferenças pode desperdiçar exatamente as capacidades que a organização pretendia encontrar.
Parceria transforma conhecimento em possibilidade concreta
A colaboração entre Espro e Instituto Rogerio Steinberg começou em 2023. Na primeira edição realizada no Rio de Janeiro, 31 jovens participaram da capacitação. Em 2024, outra turma na capital fluminense formou 21 participantes, enquanto a iniciativa chegou a Osasco, em São Paulo. De acordo com a assessoria, mais 60 jovens concluíram a formação em 2025.
A experiência anterior também aparece no portal do Espro, que registrou a capacitação realizada em 2023. Naquele projeto, o IRS contribuiu com a identificação dos participantes, a preparação da equipe para compreender aspectos básicos da superdotação, a infraestrutura e o acompanhamento do público atendido.
Rosangela Cabral, gerente executiva do Instituto Rogerio Steinberg, afirma que a parceria aproxima os jovens do mundo do trabalho e fortalece competências, conhecimentos e experiências. “Juntos, transformamos potencial em oportunidades, autonomia e perspectivas de futuro”, disse no comunicado.
A continuidade da parceria é relevante porque projetos de inclusão produzem resultados mais consistentes quando acumulam aprendizagem institucional. Cada turma permite compreender melhor as necessidades dos participantes, ajustar práticas pedagógicas, preparar educadores e construir pontes com organizações capazes de oferecer experiências profissionais.
Curiosidade precisa encontrar direção e propósito
Entre as características frequentemente associadas às altas habilidades está a curiosidade intensa. Ela pode levar o jovem a investigar assuntos com profundidade, fazer conexões incomuns e aprender rapidamente aquilo que desperta interesse. No entanto, a mesma intensidade pode encontrar barreiras em ambientes rígidos, repetitivos ou incapazes de oferecer desafios adequados.
Direção não significa limitar a curiosidade. Significa ajudar o jovem a transformar interesse em projeto, conhecimento em aplicação e capacidade em responsabilidade. Educação financeira, empreendedorismo, comunicação e rotinas organizacionais podem parecer conteúdos comuns, mas funcionam como pontes entre o que a pessoa sabe e o que consegue realizar no cotidiano.
O autoconhecimento também ocupa lugar importante. Reconhecer forças, limites, emoções e formas próprias de aprender ajuda o jovem a fazer escolhas mais conscientes. Essa dimensão dialoga com a reportagem da OlheInfo sobre saúde mental e cuidado da vida interior, que destaca a importância de compreender emoções, relações e necessidades sem substituir apoio profissional quando ele for necessário.
Nenhuma formação de curta duração resolve sozinha todos os desafios educacionais e profissionais. Mas uma experiência bem conduzida pode ampliar repertórios, criar referências, fortalecer a confiança e apresentar caminhos que antes pareciam distantes.
Uma oportunidade que interessa a toda a sociedade
A formação anunciada no Rio de Janeiro beneficia diretamente um grupo de jovens, mas o tema interessa a famílias, escolas, empresas e gestores públicos. O país perde quando capacidades permanecem sem identificação, estímulo ou oportunidade. Também perde quando confunde altas habilidades com privilégio e deixa de reconhecer que talento pode coexistir com vulnerabilidade social, dificuldades emocionais e falta de acesso.
Políticas públicas precisam avançar da identificação ao atendimento. Escolas necessitam de formação e recursos. Famílias precisam de orientação. Organizações sociais podem conectar conhecimentos especializados. Empresas têm condições de abrir portas, aperfeiçoar processos seletivos e formar lideranças capazes de trabalhar com diferentes perfis.
Para os jovens, o desafio é igualmente humano: transformar expectativas externas em escolhas próprias, sem carregar a obrigação de acertar sempre. Uma pessoa não deve ser reduzida ao seu desempenho, assim como seu potencial não deve ser ignorado por falta de oportunidade.
O curso promovido pelo Espro e pelo Instituto Rogerio Steinberg mostra que preparar para o trabalho pode ser mais amplo do que ensinar tarefas. Pode significar construir autonomia, comunicação, convivência e visão de futuro. Quando talento e oportunidade se encontram, o benefício não se limita ao currículo de um jovem. Alcança organizações mais diversas, comunidades mais fortes e uma sociedade capaz de reconhecer inteligências que se manifestam de muitas formas.
🔎 DICAS & CURIOSIDADES | VOCÊ SABIA?
Identificar altas habilidades é importante, mas não suficiente. O desenvolvimento exige acompanhamento, desafios adequados, cuidado socioemocional, experiências de convivência e preparação para escolhas reais. Jovens com grande potencial continuam sendo jovens: precisam de espaço para aprender, errar, construir vínculos e descobrir como desejam contribuir.
Para participar da formação, pessoas de 14 a 22 anos podem consultar o formulário divulgado pelo Espro e pelo Instituto Rogerio Steinberg. A seleção é conduzida pelo IRS e a confirmação de vagas, requisitos e cronograma deve ser feita diretamente com as instituições responsáveis.
Compartilhe esta matéria com famílias, educadores, jovens e empresas. Informação pode ser o primeiro passo para que um talento ainda invisível encontre reconhecimento, direção e oportunidade.
Por Redação OlheInfo
Paulo Eduardo Dubiel
Jornalista • Publicitário • Especialista em Gestão de Marketing
Diretor Executivo da Peds GM&C
Diretor Editorial da OlheInfo
Fonte do texto-base: Assessoria de Imprensa Espro
Foto: Divulgação / Assessoria de Imprensa Espro
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Fontes externas efetivamente utilizadas: Assessoria de Imprensa Espro, Lei nº 15.436/2026, Inep — Censo Escolar 2025, Portal Espro, formulário de inscrição Espro/IRS
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