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Brasil troca a bola pela academia?

Brasil troca a bola pela academia?
  • Publicadooutubro 14, 2026

Brasil troca a bola pela academia? Mudanças nos hábitos explicam a expansão fitness e desafiam a rentabilidade das grandes estruturas

ESPORTE | Por Paulo Eduardo Dubiel

Durante décadas, definir o Brasil como “país do futebol” pareceu tão natural quanto associar o esporte à camisa da seleção, aos campos de várzea e às partidas improvisadas nas ruas. A identidade permanece, mas os hábitos mudaram. Quadras deram lugar a condomínios, terrenos urbanos ficaram mais caros, rotinas se tornaram menos previsíveis e academias passaram a ocupar avenidas, centros comerciais e cidades de diferentes portes. A expansão levanta duas perguntas: o futebol ainda é o esporte mais praticado pelos brasileiros? E como academias de grandes dimensões conseguem buscar lucro em municípios como Saquarema e Três Corações, onde o número de consumidores é muito menor do que nas capitais?

Ser o país do futebol nunca significou apenas jogar

O futebol ocupa uma posição que ultrapassa a prática esportiva. Ele está na memória familiar, no vocabulário, na televisão, na publicidade, nas conversas cotidianas e na formação da imagem internacional do Brasil. Milhões de pessoas que não entram em campo acompanham clubes, campeonatos e seleções.

Por isso, audiência, torcida, identificação cultural e prática precisam ser analisadas separadamente. Um esporte pode dominar transmissões e paixões sem ser a atividade física realizada com maior frequência pela população.

A pesquisa nacional mais detalhada do IBGE sobre modalidades continua sendo o suplemento Práticas de Esporte e Atividade Física da PNAD 2015. Naquele levantamento, o futebol foi a modalidade esportiva mais praticada: 15,3 milhões de pessoas, correspondentes a 39,3% dos 38,8 milhões de praticantes de esportes. O resultado sustenta a liderança do futebol dentro da categoria “esporte”, mas não autoriza afirmar que quatro em cada dez brasileiros jogavam futebol. A proporção considera somente quem declarou praticar algum esporte.

Além disso, o dado tem mais de uma década. Ele permanece como referência nacional por sua abrangência, mas não deve ser usado como fotografia exata de 2026. A ausência de pesquisa recente com a mesma profundidade também é parte da discussão: o mercado esportivo muda mais rapidamente do que a produção de estatísticas comparáveis.

Esporte e atividade física não são a mesma pergunta

Quando o levantamento diferencia esporte de atividade física, o cenário se amplia. Caminhada, musculação, ginástica, corrida e práticas realizadas em academias disputam o tempo do brasileiro com modalidades tradicionais.

No conceito estatístico, alguém pode fazer musculação cinco vezes por semana e não declarar que pratica “esporte”. Outra pessoa joga futebol uma vez por mês e se identifica como esportista. As duas respostas descrevem comportamentos diferentes.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 informou que 30,1% dos adultos atingiam o nível recomendado de atividade física no lazer. Entre os homens, o percentual era de 34,2%; entre as mulheres, 26,4%. Ao mesmo tempo, 40,3% dos adultos foram classificados como insuficientemente ativos considerando lazer, trabalho e deslocamento.

Os dados mostram dois movimentos simultâneos: existe demanda crescente por exercício e saúde, mas permanece enorme contingente de pessoas que não pratica atividade suficiente. É justamente nesse intervalo que academias, estúdios, assessorias esportivas e aplicativos enxergam mercado.

Futebol predomina entre jovens e homens

O perfil do futebol revelado pela PNAD 2015 era fortemente masculino e jovem. Os homens representavam 94,5% dos praticantes da modalidade. Entre os entrevistados de 15 a 17 anos que praticavam esporte, o futebol alcançava participação especialmente elevada, de 64,5%.

A concentração não significa que mulheres e pessoas mais velhas não joguem. Significa que o acesso, a oferta, os hábitos e a cultura esportiva daquele período produziram um futebol praticado majoritariamente por homens jovens.

Com o avanço da idade, atividades individuais e mais flexíveis ganham importância. Caminhar, correr ou frequentar uma academia depende menos da formação de duas equipes, da reserva de um campo e da disponibilidade simultânea de várias pessoas.

Essa conveniência ajuda a explicar a transição. O futebol continua culturalmente dominante, mas a rotina urbana favorece exercícios que podem ser encaixados antes do trabalho, após o expediente ou em pequenos intervalos.

Renda e escolaridade alteram o acesso ao exercício

A prática esportiva e de atividade física também reflete desigualdades. Em 2015, 31,1% das pessoas sem rendimento ou com renda mais baixa praticavam esporte ou atividade física. Na faixa de cinco salários mínimos ou mais, a proporção chegava a 65,2%. Entre pessoas sem instrução, 17,3% eram praticantes; entre aquelas com nível superior completo, 56,7%.

Esses percentuais não definem uma “classe da academia”, mas demonstram que renda e escolaridade influenciam tempo disponível, acesso a equipamentos, segurança, informação e possibilidade de pagar por serviços.

O mesmo levantamento mostrou que caminhada e fitness ou academia tinham participação feminina majoritária. As mulheres correspondiam a 63,6% dos praticantes de caminhada e 66,4% dos que declararam fitness ou academia.

O modelo de redes com mensalidades mais acessíveis contribuiu para ampliar o público. Ainda assim, a expansão física de unidades não elimina barreiras. Mensalidade, transporte, jornada de trabalho, cuidados familiares, insegurança urbana e falta de orientação continuam interferindo na adesão.

Em vez de imaginar uma única classe ou faixa etária predominante, é mais correto reconhecer segmentos. Jovens podem buscar estética e desempenho; adultos conciliam saúde, imagem e rotina; pessoas mais velhas valorizam força, mobilidade e autonomia; públicos de maior renda consomem serviços premium; consumidores sensíveis a preço procuram redes de grande escala.

A academia substitui conveniência, não necessariamente paixão

O crescimento das academias não prova que o brasileiro deixou de gostar de futebol. Mostra que o exercício físico passou a ser comprado como serviço recorrente, próximo e disponível durante muitas horas do dia.

Uma partida depende de adversários, companheiros, espaço e horário. A musculação depende principalmente da decisão individual e do acesso à unidade. Essa diferença é decisiva em cidades nas quais campos de bairro desapareceram, deslocamentos aumentaram e grupos tradicionais se dispersaram.

Academias também incorporaram tendências que o futebol recreativo não oferece com a mesma facilidade: acompanhamento por aplicativos, ambientes climatizados, diversidade de equipamentos, treinos curtos, aulas coletivas, avaliação física e integração com benefícios corporativos.

O consumidor não compra somente exercício. Compra conveniência, sensação de pertencimento, aparência, saúde, socialização e disponibilidade. Em alguns casos, compra a possibilidade de treinar — mesmo que a utilize pouco.

A febre das grandes estruturas

O Brasil se consolidou como um dos maiores mercados de academias do mundo. Levantamentos setoriais recentes divergem sobre o número exato de estabelecimentos porque utilizam critérios diferentes, mas convergem sobre a expansão e a fragmentação do setor.

Essa multiplicação é visível nas capitais e também no interior. Galpões amplos, centenas de máquinas, estacionamento, climatização e funcionamento prolongado chegaram a cidades que, pela população aparente, parecem pequenas para comportar tamanho investimento.

Saquarema, no Rio de Janeiro, e Três Corações, em Minas Gerais, ilustram a pergunta. São municípios com características distintas, mas ambos recebem estruturas que seriam mais facilmente associadas a grandes centros.

A análise, entretanto, não pode considerar somente o número oficial de habitantes. A academia pode atender bairros vizinhos, municípios próximos, população flutuante, trabalhadores que circulam pela região, estudantes, turistas, beneficiários de planos corporativos e clientes atraídos por localização ou estacionamento.

Saquarema possui sazonalidade, eventos esportivos e expansão urbana. Três Corações exerce influência sobre municípios do Sul de Minas e concentra comércio, serviços, estudantes e deslocamentos regionais. A área real de captação pode superar os limites administrativos.

Isso explica a possibilidade. Não comprova a viabilidade de cada unidade.

O modelo de baixo preço depende de grande volume

As redes de baixo custo popularizaram uma equação baseada em mensalidade acessível, automação, operação padronizada e muitos alunos matriculados. A margem individual é menor; o ganho depende da escala.

Esse modelo não pressupõe que todos os clientes utilizem a academia diariamente. Se todos comparecessem no mesmo horário, muitas unidades não teriam capacidade. A receita recorrente resulta do conjunto formado por usuários frequentes, ocasionais e pessoas que mantêm o plano mesmo utilizando pouco.

Isso não significa que a academia deseje necessariamente o abandono. Cancelamento elevado exige novas vendas constantes e aumenta o custo comercial. O cliente que frequenta, percebe resultado e permanece durante mais tempo tende a ser mais valioso do que aquele que entra por impulso e cancela rapidamente.

O desafio está em equilibrar base ativa, capacidade física e experiência. Uma unidade vazia pode indicar baixo desempenho comercial. Uma academia permanentemente lotada pode deteriorar atendimento, equipamentos e reputação.

Não existe número universal de alunos necessário para gerar lucro. Estudos e análises de modelos de baixo custo trabalham com milhares de matrículas por unidade, mas o ponto de equilíbrio varia conforme investimento, aluguel, financiamento, folha, energia, manutenção, impostos, royalties, preço e serviços.

O Sebrae define o ponto de equilíbrio como o nível de receita necessário para igualar custos e despesas. Somente acima dele começa a formação do lucro. Em uma academia, a conta precisa considerar também inadimplência, cancelamentos, descontos, sazonalidade e reinvestimento em equipamentos.

Estrutura grande pode ser vantagem ou armadilha

Instalações amplas melhoram a percepção de valor, comportam mais equipamentos e permitem atender maior número de pessoas. Também podem funcionar como barreira competitiva: um novo concorrente precisaria investir muito para oferecer estrutura semelhante.

Por outro lado, cada metro quadrado acrescenta custo. Aluguel, reforma, iluminação, climatização, limpeza, segurança, manutenção e depreciação continuam existindo quando a catraca registra menos entradas.

A academia de grande porte precisa responder a perguntas objetivas. Quantas pessoas vivem ou circulam na área de influência? Qual parcela tem renda e interesse compatíveis? Quantos concorrentes disputam o mesmo público? Quanto custa adquirir um aluno? Por quanto tempo ele permanece? Qual é a mensalidade média efetivamente recebida, após descontos e planos corporativos?

Também é necessário medir concentração de horários. Uma unidade pode parecer cheia entre 18h e 21h e operar com elevada ociosidade no restante do dia. A fotografia do horário de pico não representa a rentabilidade mensal.

Em cidades menores, dividir o público entre muitas marcas pode produzir uma competição difícil. Cada nova unidade não cria automaticamente novos praticantes; parte das matrículas migra de academias existentes. Sem expansão real do mercado, o crescimento de uma empresa pode significar apenas redistribuição da mesma demanda.

O investimento só faz sentido com diagnóstico local

Abrir uma academia porque o setor cresce nacionalmente é uma forma perigosa de decidir. Tendência nacional não paga custos locais.

Uma análise de viabilidade precisa mapear população, renda, idade, bairros, deslocamentos, empresas, escolas, planos de saúde, concorrentes, preços, horários, estacionamento e hábitos. Deve projetar cenários conservador, provável e otimista, incluindo o tempo necessário para formar a base de alunos. Como orienta o Sebrae ao explicar a viabilidade de um negócio, o ponto de equilíbrio indica quando as receitas passam a cobrir custos e despesas; somente depois desse limite surge lucro.

Em Saquarema, a sazonalidade e a população flutuante podem criar picos que não se repetem durante todo o ano. Em Três Corações, a centralidade regional pode ampliar o mercado, mas exige compreender de onde o cliente vem e quanto está disposto a se deslocar.

Uma unidade pode ter excelente desempenho em um lado da cidade e fracassar poucos quilômetros adiante. Para serviços recorrentes, conveniência pesa tanto quanto preço. A academia escolhida costuma estar perto da residência, do trabalho ou do caminho entre ambos.

O dimensionamento também deve acompanhar a proposta. Uma academia de bairro pode competir por proximidade e atendimento. Um estúdio pode trabalhar com poucos clientes e mensalidade maior. Uma rede de baixo custo precisa de volume e eficiência. Um modelo premium depende de experiência, serviços e capacidade de pagamento.

Misturar estruturas e preços incompatíveis destrói margem.

Lucro depende de retenção, não apenas de matrículas

Campanhas de inauguração geram cadastros. O resultado sustentável aparece nos meses seguintes.

Se o aluno não recebe orientação, encontra equipamentos indisponíveis, enfrenta filas ou não percebe evolução, a possibilidade de cancelamento aumenta. O problema pode ser atribuído à “falta de disciplina do cliente”, quando parte da causa está na experiência entregue.

Retenção exige integração entre vendas, avaliação, treino, acompanhamento, manutenção, limpeza, comunicação e relacionamento. A equipe comercial não deve prometer aquilo que a operação não consegue sustentar.

O artigo “O resultado do processo de gestão é a venda?”, publicado no Blog do Marketing, defende que atração e retenção de clientes são consequências de um sistema de gestão orientado à satisfação. Para academias, essa visão é especialmente relevante: vender planos sem criar permanência obriga o negócio a repor continuamente a base perdida.

Peds GM&C pode avaliar antes da expansão

A Peds GM&C, agora também em Três Corações, atua de forma integrada em Gestão, Marketing, Comunicação e Vendas. Para academias, estúdios e outros negócios esportivos, essa abordagem permite avaliar se estrutura, mercado, operação e posicionamento estão alinhados.

O RX Empresarial identifica riscos, gargalos, desperdícios e oportunidades antes de recomendar investimento, expansão ou campanha. A análise pode envolver área de influência, proposta de valor, jornada do aluno, conversão de contatos, evasão, capacidade instalada, horários, equipe, canais, reputação e indicadores.

Uma academia pode interpretar baixa adesão como falta de publicidade quando o verdadeiro problema está no preço, na localização, no atendimento ou no modelo. Pode investir em máquinas quando precisa reorganizar horários. Pode abrir nova unidade antes de corrigir perdas na operação atual.

A Performance Empresarial transforma o diagnóstico em prioridades, responsáveis e acompanhamento. A proposta não é garantir que toda grande academia seja viável, mas substituir percepção por evidências antes que a estrutura se transforme em peso financeiro.

O conteúdo “Prevenir custa menos que reparar” reforça que investimentos e decisões precisam ser precedidos por diagnóstico. Em negócios de capital intensivo, corrigir antes da abertura custa menos do que sustentar ociosidade depois.

O Brasil continua sendo do futebol

O Brasil não deixou de ser o país do futebol. A expressão continua verdadeira no campo cultural, afetivo e econômico. O que mudou foi o modo como a população incorpora exercício à rotina.

O futebol segue como principal modalidade esportiva na pesquisa nacional disponível, especialmente entre homens jovens. Caminhada, fitness, musculação e academia ampliaram espaço porque oferecem flexibilidade a públicos e idades diferentes. O acesso, contudo, permanece desigual e cresce com renda e escolaridade.

A proliferação de academias responde a uma demanda real por saúde, estética, convivência e conveniência. Mas quantidade de unidades não comprova rentabilidade. Em cidades como Saquarema e Três Corações, grandes estruturas podem funcionar quando captam demanda regional, atingem escala, controlam custos e retêm alunos. Sem esses elementos, o tamanho que impressiona pode ser o mesmo que compromete o caixa.

O esporte mudou, o consumidor mudou e o mercado cresceu. A gestão precisa acompanhar essa transformação. Antes de perguntar quantas máquinas cabem em um espaço, o investidor deve descobrir quantos clientes reais cabem no seu modelo de negócio.

Compartilhe esta matéria, reflita sobre como seus hábitos esportivos mudaram e conheça a atuação da Peds GM&C na avaliação de mercado, processos, riscos e oportunidades empresariais.

 

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Por Redação OlheInfo
Paulo Eduardo Dubiel
Jornalista • Publicitário • Especialista em Gestão de Marketing
Diretor Executivo da Peds GM&C
Diretor Editorial da OlheInfo
Foto: Divulgação

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Sobre o autor

Paulo Eduardo Dubiel é jornalista, publicitário, gestor de Marketing e Negócios, especialista em Gestão de Marketing, com MBA Executivo em Gestão de Negócios e pós-graduação em Inteligência Emocional. Diretor Executivo da Peds GM&C — Gestão, Marketing & Comunicação e Diretor Editorial do OlheInfo, reúne mais de 25 anos de experiência em gestão, marketing, comunicação, vendas, liderança, desenvolvimento organizacional e expansão empresarial.

À frente da Peds GM&C, atua na identificação de riscos, gargalos, desperdícios e oportunidades por meio do RX Empresarial, da Direção Externa de Gestão & Expansão, do planejamento estratégico, do desenvolvimento comercial, da gestão de pessoas e processos e de treinamentos orientados por diagnóstico e resultados. Sua atuação auxilia organizações a avaliar mercados, dimensionar estruturas, melhorar a experiência do cliente e transformar investimento em performance mensurável.


Links internos e institucionais inseridos: página do autor no OlheInfo, Peds GM&C, RX Empresarial, O resultado do processo de gestão é a venda?, Prevenir custa menos que reparar, Como aumentar o faturamento da empresa, Equipes preparadas sustentam clientes e resultados.

Fontes externas efetivamente utilizadas: IBGE — PNAD 2015 Práticas de Esporte e Atividade Física; IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde 2019; Sebrae — viabilidade empresarial e ponto de equilíbrio.

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Escrito por
Redação Olheinfo

Veículo de comunicação web periódico criado em 2007 no Distrito Federal, editado pelo Jornalista Responsável DF04203JP, Publicitário 458-MTP e Consultor Master em Gestão Empresarial Paulo Eduardo Dubiel, Esp.

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