Brasil perde no turismo internacional

10/12/2015

O barato pode sair caro! E o caro pode virar um caos – cenário turístico do Brasil, que mesmo com o dólar em alta não há demanda.

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Arte: Nilton Magalhães/Fato Online 

Todos esperavam que o retorno turístico projetado, em função da Copa de 2014, pudesse ficar ainda maior com a alta do dólar; porém as expectativas de retorno para o investimento bilionário do mega evento internacional foram frustradas pela péssima receptividade estratégica do turismo brasileiro. Não adianta tentar encontrar o culpado ou ficar justificando números, como: culpar a queda do turismo argentino, a decadência econômica no país e o reflexo disso no turismo de negócios, ou ainda atribuir a culpa à crise do governo.

 

Não há culpado! O fato é que nunca houve o desenvolvimento de um trabalho sério que contemplasse o planejamento operacional, estratégico e tático a longo prazo no turismo brasileiro. O Jornal Olheinfo já escreveu por diversas vezes sobre as ações paliativas praticadas pelo governo, apenas para mostrar que algo está sendo feito e não para obter resultado real e sustentável.

 

A Copa de 2014 foi uma calamidade para o Brasil (sem comentar as mazelas de uma derrota eivada de ações obscuras e as vergonhosas vaias à presidente da República), um investimento que jamais será revertido em benefício para o Estado, cidadão e muito menos para o turismo. As oportunidades passaram e a falta de planejamento, com foco na retenção do turista internacional, proporcionou o resultado atual.        

 

O Brasil precisa aprender a investir na retenção do turista estrangeiro, desenvolver políticas públicas voltadas para a preparação da cultura local. O foco do cidadão receptivo deve ser diferente do ganhar dinheiro com o turismo. Turismo é lazer, aventura, negócios etc., porém o turista é cidadão como outro que busca tranquilidade e segurança; precisa ser acolhido não como fonte de renda, mas sim com amor e respeito pela pessoa que é.

 

Atrair os turistas de diferentes nacionalidades, com a receptividade caótica que o Brasil tem, no sentido de enxergar o turista estrangeiro como o “gringo cheio de dinheiro”, é acelerar ainda mais o declínio do setor. A Inteligência precisa ser praticada com o foco em servir e conduzir as situações de forma sustentável; falar em “reforçar o trabalho que já existe de marketing do Brasil como destino turístico para os estrangeiros” é um erro grosseiro – se não há resultados satisfatórios é porque há erro na ação, como então alimentar aquilo que está errado? O barato para o turista estrangeiro, pode ficar caro – essa é a visão que eles têm de um país que está interessado no seu dinheiro. O caro virou um caos – cenário deixado pela Copa 2014. Agora é ter consciência e converter essa cultura pobre e barata de querer extrair o dinheiro do turista estrangeiro.

 

Por Paulo Eduardo Dubiel

Executivo em Gestão de Marketing & Negócios, Esp.

Diretor Executivo da Peds GM&C  - www.peds.com.br

Editor do Olheinfo

 

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Crise econômica derruba turismo de negócios e falta de política de longo prazo para o setor dificulta melhora significativa no fluxo de estrangeiros para o Brasil. E isso mesmo com o país tornando-se um destino bastante barato em dólar

 

A disparada da taxa de câmbio neste ano tornou o Brasil um lugar bem mais barato para os turistas estrangeiros visitarem. Mesmo assim, o ano de 2015 tem sido marcado por um fraco movimento dos visitantes de outros países. É o que indicam os números do BC (Banco Central) sobre os gastos de viajantes estrangeiros no Brasil.

 

Os dados mostram que, de janeiro a outubro, a receita de dólares na conta de viagens internacionais está no nível mais baixo para o período desde 2010, primeiro ano da nova série estatística do BC. Nos dez primeiros meses deste ano, foram deixados por aqui US$ 4,8 bilhões. O volume foi 17,2% menor do que o verificado no ano passado, quando o Brasil foi o anfitrião da Copa do Mundo. Em 2012 e 2013, sem esse megaevento, os gastos também superaram a marca dos US$ 5 bilhões.

 

Segundo o diretor de Estudos e Pesquisas do Ministério do Turismo, José Francisco Lopes, apesar da queda no volume deixado por estrangeiros, há um crescimento de cerca de 4% no número de visitantes no Brasil, na comparação com 2013 (ano que não teve o efeito Copa).

 

Ele explica que, embora a taxa de câmbio favoreça a vinda de estrangeiros, outros fatores pesam contra. Um deles é a crise econômica que atinge boa parte da América do Sul, origem de cerca de metade dos turistas que vêm ao Brasil. Lopes comenta também que a Argentina, individualmente, é o país que mais gera turistas para o Brasil, e suas dificuldades econômicas têm prejudicado o movimento. Além disso, o técnico do governo lembra que a Europa ainda não está economicamente bem, o que também impacta negativamente as decisões de viagens.

 

Lopes também explica que, com o dólar valendo mais, o estrangeiro consegue fazer as mesmas coisas pagando menos. Com isso, no final das contas a tendência é que individualmente ele gaste menos no país. De qualquer forma, ele reconhece que é preciso reforçar o trabalho que já existe de marketing do Brasil como destino turístico para os estrangeiros.

 

Para a professora doutora da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora da área de turismo urbano, Mariana Aldrigui, o Brasil precisa desenvolver uma política personalizada para atrair os turistas de diferentes nacionalidades. Assim, cada perfil de turista seria alvo de uma campanha específica para atraí-lo a visitar o Brasil. Ela reconhece que o quadro de restrição orçamentária dificulta esse trabalho, em especial no momento em que o dólar alto encarece os custos no exterior.

 

“O Brasil precisa de uma política de longo prazo específica para o setor de Turismo, mas que seja integrada com outros setores. É preciso que a política de desenvolvimento econômico inclua o turismo”, explicou Mariana. Ela lembra que o setor é “estrategicamente interessante”, forte gerador de empregos para pessoas jovens, idosas e de baixa renda (normalmente os mais atingidos pela crise) e de receitas para o setor público. “O turismo é uma saída interessante para a economia”, afirmou.

 

A especialista também salientou que o menor volume de receitas em dólar geradas por turistas está relacionada à crise econômica, que diminui o movimento dos negócios. “O Brasil como destino de turismo de negócio sofre quando a economia vai mal”, destacou. Por outro lado, explica, o turismo de lazer não responde rapidamente à melhora da taxa de câmbio e ainda sofre com questões como a exigência de vistos para visitantes.

 

A economista da CNC (Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo), Juliana Serapio, também avalia que a conjuntura econômica desfavorável, agravada pela crise política, afugenta o turista estrangeiro. Segundo ela, a maior parte dos turistas (cerca de 70%) vem para fazer negócios e não para conhecer as belas praias do país.

 

“Como a gente está com esse problema todo de crise econômica, de problema de estabilidade, esse turismo de negócio caiu muito. Essa queda observada nos dados do Banco Central se deve a isso”, explicou a economista.

 

Juliana disse ainda que tem havido uma queda na taxa de ocupação hoteleira, com base em dados do Fohb (Fórum dos Operadores Hoteleiros). Apenas no primeiro semestre do ano, o recuo foi de 6%. “São quedas do turismo de negócios, de congressos, esse tipo de coisa. E isso tem uma participação muito importante das receitas (na conta de serviços)”, afirmou. Para ela, enquanto não houver sinais de melhora econômica, não deve haver entrada significativa de dólares pela conta de viagens internacionais.


Fonte:http://fatoonline.com.br/conteudo/13534/mesmo-barato-em-dolar-brasil-nao-empolga-turistas-estrangeiros?or=he-eco&;p=de&i=1&v=0